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A Identidade de Gênero e a Criptorquidia

Nasceu um bebê. Imediatamente, o médico se põe a examinar sua genitália para anunciar seu sexo: menina ou menino. Ele é o responsável pela identificação do sexo. A partir deste momento, será possível à família, através do nome escolhido, iniciar a construção da identidade pessoal desse bebê.

Entretanto, por uma deficiência hormonal durante a gestação, houve uma falha no processo de diferenciação sexual, resultando numa criança com a ausência da bolsa escrotal e micro-pênis, uma das características de Intersexo. Este bebê nasceu com uma má formação congênita, denominada Criptorquidia, na qual os testículos ficam aprisionados, não podendo descer, adequadamente, à bolsa escrotal. Externamente, há uma ambigüidade na genitália, impossibilitando ao médico fornecer a identidade sexual.

Sem poder definir, externamente, o gênero do bebê, uma investigação do seu cariótipo soluciona o impasse: a identidade passa a ser definida pelo cariótipo XY, ou seja, gênero masculino.

Daniel (nome fictício) é um menino com 10 anos de idade que reside com os pais e uma irmã de três anos em um município do Rio de Janeiro. Submeteu-se, a partir dos 6 meses de idade, a um tratamento hormonal periódico, cujo efeito permitiu que seus testículos fossem palpados, descartando a necessidade de cirurgia. Porém, os testículos permaneceram retráteis, forçando a permanência da terapia hormonal.

A mãe de Daniel compareceu ao serviço de Psicologia do ambulatório de Pediatria do HUPE muito aflita. Relatou que, devido ao problema no desenvolvimento da genitália, que se encontra desproporcional à idade, seu filho estaria impedido de ter uma vida sexual normal, carecendo de assistência psicológica.

A fala da mãe apontou para uma dificuldade em aceitar o problema de seu bebê. Ela exigia que ele correspondesse às suas expectativas com nada além da perfeição. Como não foi possível para ela ter um bebê perfeito, Daniel teria que ser perfeito em tudo que fizesse, revelando a impossibilidade dessa mãe em elaborar dois lutos: do bebê perfeito e da mãe do bebê perfeito.

Ela engravidou sete anos depois, temendo que fosse outro menino e que a história se repetisse. Desejava, desesperadamente, uma menina para substituí-la caso ela faltasse nos cuidados com Daniel. Explicou que uma menina compreenderia o problema do irmão, aceitando-o e amando-o. Acreditava que estaria evitando mais um sofrimento ao filho, pois estaria dando uma mulher para ele, já que ela mesma não poderia ser sua mulher. Ao mesmo tempo, ela estaria aliviando sua própria angústia e culpa, oferecendo alguma coisa a seu filho para compensar seu defeito.

O pai tem medo que seu filho se torne num homossexual. Entretanto, a identidade sexual ocorre a despeito das anormalidades biológicas presentes, mesmo defeitos cromossomiais ocultos, gonadais ou hormonais.

Para Freud, a conclusão, insatisfatória, que emerge dessas questões sobre os distúrbios da vida sexual, é devido ao pouco conhecimento sobre os processos biológicos que constituem a essência da sexualidade para sermos capazes de construir uma teoria adequada à compreensão das condições tanto normais quanto patológicas da sexualidade.

OS DESENHOS

19/06/01 - Desenho 1

"É uma história de uma criança que está brincando com seus amigos; brincando de pique-esconde e a menina está cantando". Daniel carimbou uma aranha e disse que a pessoa foi devorada por ela. Desenhou um leão que comeu outra pessoa. "Outra torceu o pé num tronco, caiu no rio e o peixe comeu. A cobra comeu outra criança" . Daniel contou quantas crianças haviam no desenho e disse que teria que terminar com uma pessoa viva apenas.

Daniel pensou no modo de matar os demais e criou outra aranha, uma lacraia, outro leão e outro peixe que "come a cara dele" . Daniel circulou quem sobreviveu. Eu disse que aquele era especial por ter sobrevivido, o que ele me respondeu: "Sorte, não estava aqui no meio. São 9 pessoas; 8 morreram" .

Eu interpretei como havendo uma necessidade de ficar de longe, fora da confusão para sobreviver. Estar envolvido significaria morrer, ser invadido, ser devorado. Ficar afastado seria uma defesa, um modo de negar o que acontecia com ele.

26/06/01 - Desenho 2

Daniel fez um desenho de um navio no centro do papel. Enquanto fazia, cantava. Fez nuvens, o mar, criando uma tempestade, com raios e muita chuva, transformando o mar, com ondulações altas e nervosas. Daniel reforçou as gotas.

"O navio está em meio de uma tempestade, o raio está por alcançar o navio, que é atingido por um iceberg. Surge um iceberg que fura o casco do navio e faz a água do mar invadir. O navio afunda. As pessoas pedem ajuda. Têm as pessoas que socorrem. O navio está afundando; dentro do navio há poucos botes. São 15 mil pessoas e há 8 botes. Eles chamam a Guarda Costeira para salvar, mas para salvar muita gente, tem que ter muitos barcos, uns mil deles. Só sobraram poucos por causa da tempestade. Chegaram 11 barcos. Não dá para sobreviverem essas 15 mil pessoas. O barco virou para o lado. O helicóptero resgata as pessoas no bote, que são os ricos; os pobres dependem dos barquinhos. O helicóptero bate num iceberg por causa da neblina. Eram 500 helicópteros, mas apenas 8 helicópteros chegaram e um bate no iceberg".

Daniel contabilizou 10 mil pessoas salvas e declarou que, inevitavelmente, alguns haveriam de morrer. Há uma preocupação em salvar o máximo possível, até que surge um impasse: toda a ajuda que seria possível foi executada e, o poderoso navio, afundava.

Daniel continuou a história dizendo que caíram ao mar 5 mil pessoas e mil salvaram-se, alcançando os barcos, apesar da tempestade e água congelante. O saldo foi de 4 mil mortes.

Daniel se implicou neste momento. A história revelou um navio que sofreu danos e que precisava de ajuda, assim como Daniel, que sofreu danos e precisava de ajuda. Houve uma promessa de assistência que resolveria todos os seus problemas, mas aquela que chegava não era suficiente e não conseguia salvar tudo. Algo em si deveria ser sacrificado.

Daniel percebia que nem tudo poderia ser curado, salvo. Ele teria que elaborar as perdas que marcam seu corpo físico, reparando algo de sua ferida narcísica: um pênis pequeno, mas com um funcionamento próximo ao normal. A presença de símbolos fálicos no desenho revela sua imagem corporal: ele faz a construção de sua identidade pessoal como masculina.

21/08/01 - Desenho 3

"Um peixe, dois peixes: Clifford, Michel. Moravam em um rio em que se jogava lixo, poluição. Gostamos de aviões, coisas da terra , falavam os peixes. Eles tentaram fazer um automóvel para ir a terra. Os demais achavam loucura, mas os dois peixes colocaram água dentro do automóvel para ir para a terra. Um pescador foi lá, quando os peixes iam estrear o negócio. O pescador pegou o pai e a mãe. Os irmãos ficaram tristes. A máquina não tinha roda para andar para tentar salvar os pais. Um dia, o pescador voltou de novo com uma bola no anzol, que os peixes foram pegar e fizeram de roda. O pescador ainda estava com os peixes vivos numa bacia. Michel sentiu o cheiro dos pais e deu um salto e bateu na cesta que caiu na água, conseguindo salvar os pais. Colocaram as bolas no carro e foram para a terra, até que um garoto os pegou e os colocou no aquário. Os peixes pediram para voltar para o rio, nossa melhor casa , falavam os peixes, para ver os familiares. Com o carrinho, ele retirou o lixo do rio para fazer brinquedos com lixo reciclado".

Daniel estava imerso em um mundo interno considerado poluído, danificado como seu próprio corpo defeituoso e estragado. Sua imagem e seu esquema corporal eram vivenciados como ambos lesados. Ele também percebia sua família em sofrimento, cabendo a ele a responsabilidade de resgatá-la e de compensá-la.

Daniel procurava um mundo sem problemas, um refúgio psíquico, onde a realidade não precisa ser encarada, onde a fantasia e a onipotência coexistem sem restrições e tudo é permitido. Entretanto, a proteção que o refúgio oferece é temporária e Daniel reconheceu a necessidade de "arrumar sua casa", arrumar seu mundo interno, reciclando, dando outro significado para algo, anteriormente, visto como lixo, para virar "brinquedo".

Daniel estava em franco processo de elaboração.

11/09/01 - Desenho 4

"Era uma vez um papagaio. Havia filhotinhos no ninho. Um ovo caiu no teto do quiosque. Nasceu e começou a procurar a mãe, e não achou. Tentou voar, e caiu no mato, mas não se machucou. Foi para a casa e encontrou um gato. Tentou escapar. O filhote caiu e, quando o gato iria pegá-lo, ele prendeu o pé. A menina que passava ouviu o barulho, foi ver o que era. Ela pegou uma escada, subiu no telhado e pegou o passarinho e jogou o gato longe. Ela pegou o filhote de papagaio para cuidar. O papagaio cresceu e aprendeu a falar. A menina ensinou ele a falar. Ele pediu para a menina para ver a mãe. Ela iria ajudá-lo a voar, para ele procurar a mãe, mas ele caiu e o gato acabou salvando ele. O papagaio pediu para o gato procurar a mãe dele. O gato achou a mãe do papagaio. A mãe chorou e contou que um ovo se perdeu dela. O papagaio tinha uma marca no peito. A mãe perguntou como ele poderia provar que ele era seu filho. Ele afastou as penas e mostrou sua marca. Ela o reconheceu e todos ficaram amigos".

Daniel era o ovo desamparado que foi separado do ninho ao nascer. Ele percebeu uma falha no acolhimento de sua família, que o criava com muita ansiedade e culpa. Sentia-se ameaçado pela perseguição e manipulação de seu corpo ainda frágil, sendo a equipe médica como "um gato terrível, ameaçador". Entretanto, ele sentiu-se resgatado pelo espaço terapêutico, onde pode fazer uso de seus recursos, de sua capacidade imaginativa e criadora para elaborar, através de seus desenhos, a sua própria história. Onde aprendeu a falar com a "menina", a psicóloga, que, ao interpretar seus desenhos, punha palavras em suas experiências emocionais, oferecendo um continente e transformando seus pensamentos em pensamentos pensados, dando-lhes sentido.

Daniel deseja ser acolhido por sua família, ser aceito e reconhecido pela sua "marca", seu pênis na linha inferior da normalidade.

Daniel está investindo em suas produções artísticas, chegando a vender desenhos encomendados por seus colegas de escola. Pretende fazer um curso de desenho no final do ano e criar histórias em quadrinhos. Seus pais estão em terapia familiar no HUPE.

Informações bibliográficas:

AMENDOLA, Marcia Ferreira. A Identidade de Gênero e a Criptorquidia. Revista Práxis e Formação: as várias modalidades de intervenção do Psicólogo . Anais do VII Fórum da Residência em Psicologia Clínico-Institucional - HUPE/UERJ, set. de 2001. Disponível em www.canalpsi.psc.br/artigos/artigo01.htm. Acessado .

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