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Mães que choram.

Mães que Choram é um trabalho monográfico referente ao Programa de Pós Graduação em Psicologia Clínico-Institucional - modalidade residência hospitalar da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e discorre sobre uma pesquisa baseada na avaliação psicológica de mães com crianças vítimas de abuso sexual pelos pais realizada no Setor de Psicodiagnóstico Diferencial do Hospital Universitário Pedro Ernesto com a colaboração e parceria do Serviço de Psicologia do Ambulatório de Pediatria, no período de setembro de 2001 a fevereiro de 2003.

Esse material é um resumo do artigo publicado no capítulo III do livro "O Mosaico da Violência - a perversão na vida cotidiana", organizado pela psicóloga Dra Maria do Carmo C. de Almeida Prado e editado pela Vetor no ano de 2004. O leitor que se interessar pelo tema, poderá ler o artigo em sua íntegra: o relato dos quatro casos atendidos; análise desses casos; análise dos testes aplicados; as discussões sobre abuso sexual contra crianças, sobre as denúncias e a problemáticas das falsas denúncias e a conclusão do trabalho.

INTRODUÇÃO

Por avaliação psicodiagnóstica podemos compreender como sendo um processo científico, limitado no tempo, que estuda a personalidade, utilizando-se de técnicas e de testes psicológicos que melhor permitam a obtenção da projeção (Cunha, 2000). Segundo Hammer (1981), projeção é o processo psicológico em que se atribui qualidades, sentimentos, atitudes e anseios próprios aos objetos do ambiente, sendo o conteúdo projetado conhecido ou não pelo sujeito como parte de si. Tem por finalidade a elucidação de problemas baseados em pressupostos teóricos, assim como identificar e avaliar aspectos específicos, como classificar e prever o curso possível de casos, comunicando os resultados e propondo soluções.

Os testes psicológicos são instrumentos de considerável importância e utilidade (desde que utilizado com conhecimento e competência) no exercício profissional do Psicólogo que realiza avaliação psicológica, especialmente em enquadres institucionais jurídicos concernentes a exames criminológicos, perícia psicológica e, como no presente trabalho, em casos de violência contra criança.

Assim, com o propósito de melhor conhecermos a psicodinâmica de mães de crianças vitimizadas, a avaliação psicodiagnóstica abrangeu, especificamente, os desempenhos nos testes Pirâmides Coloridas de Pfister, Bender Viso-motor, de Memória e Associativo, Questionário Desiderativo, Grafismo - HTPFA e Rorschach, além da revisão dos dados através da análise de estudo de caso, com fundamentação psicanalítica.

No que se refere à metodologia de pesquisa, os atendimentos às mães partiram de uma entrevista inicial, na qual visava-se obter uma imagem do conflito central, a história de vida da paciente, a situação desencadeadora do problema, a dinâmica do conflito e uma estratégia de ação. Utilizamos o enquadre de entrevista semi-dirigida, com especial atenção para o ciclo vital da paciente. As sessões foram realizadas no Serviço de Psicologia Aplicada, local que ofereceu salas adequadas, além dos recursos selecionados para o processo. As sessões, seis ao todo para cada paciente, tiveram um tempo alargado, com média de 1h30min por sessão, chegando até 2 horas de duração em alguns casos. Os testes utilizados foram aplicados na última meia hora prevista para o término da sessão, em função das mães chegarem muito chorosas e apresentarem necessidade de falar sobre seus medos e conflitos.

Ao todo foram encaminhadas nove mães, das quais distinguimos:

•  um caso de desistência;
•  um caso em que a mãe foi acusada de assediar sexualmente seu filho;
•  um caso em que o abusador era o tio da criança, irmão adotivo da mãe;
•  dois casos em que as mães acusaram os pais das crianças após estes efetuarem o pedido de guarda, havendo suspeita de falsa denúncia;
•  quatro casos em que as mães prestaram relatos de abuso sexual pelos pais, corroborados pelo discurso da criança abusada, assim como seu comportamento, exame clínico e psicológico.

Apesar do trabalho ter sido exaustivo, foi gratificante receber as mães em atendimento e perceber que o espaço que lhes foi fornecido, para falar ou chorar, foi importante e necessário, de modo que propomos que haja uma continuidade deste projeto, não apenas para dar um primeiro acolhimento e elaborar perfis psicológicos, mas para contribuirmos com o papel social que cabe à Psicologia.

Mães Protetoras

As mães de crianças vítimas de abuso sexual pelos pais estão diretamente ligadas às questões do abuso, mas de que forma?

O termo "mães protetoras" define um comportamento específico de mães com crianças vítimas de violência sexual; conota uma atitude de proteção "pós-trauma". Constatamos que existe uma compatibilidade verificada no comportamento e no discurso dessas "mães protetoras", que se apresentam aflitas, culpadas e necessitando de acolhimento e orientação. Questionam-se como não puderam perceber a violência de seu cotidiano e choram muito - são as "mães que choram" .

Estas mães contrapõem-se às "mães não-protetoras", que se apresentam relutantes em separar do marido, desacreditando o relato ou sintoma da criança. São assim definidas por apresentarem comportamentos diretamente relacionados à falta de assistência aos filhos vítimas de violência sexual. Há ainda casos em que as mães fazem "falsas denúncias", comparecendo aos atendimentos com metas bastante diferenciadas das "mães protetoras". Há indícios de que elas apenas almejam se "livrar" dos ex-companheiros e receber a pensão dos filhos. Os trâmites do processo judicial parecem aborrecê-las, gerando um clima de tensão e insatisfação geral.

Com relação aos pais acusados, verificamos que raramente comparecerem às entrevistas psicológicas. Salvo os casos de falsa denúncia, em que os pais tendem a colaborar com os trabalhos.

Análise dos casos

Verificamos que as histórias das "mães que choram" apresentam aspectos em comum, esquematicamente, retratados pelas seguintes características.

•  Não ofendem os pais de seus filhos, justificando-os como "doentes";

•  Apresentam dificuldade de compreender as informações assinaladoras de situações abusivas, levando certo tempo para constatarem que seus filhos estavam sendo abusados sexualmente;

•  Mostram-se perplexas e incapazes de conceber, com antecipação, a possibilidade da ocorrência de abuso sexual pelos ex-maridos;

•  Procuram assistência aos filhos tão logo percebem a ocorrência do abuso;

•  Levam seus filhos para realizar o exame de corpo de delito no IML, bem como exames clínicos;

•  Temem pelos filhos e por si próprias, sentindo-se ameaçadas e perseguidas;

•  Apresentam muitas dúvidas com relação às informações que poderão dar aos filhos com relação à visitação, ao abuso sexual, ao processo na Justiça;

•  Desejam saber se seus filhos se tornarão homossexuais e se terão "cura";

•  Apresentam dificuldade de relacionamento com os filhos vitimados;

•  Percebem a agressão à criança como um ataque violento à sua própria integridade.

As "mães protetoras" também são mulheres que:

•  Não buscam, espontaneamente, assistência psicoterápica para elas próprias;

•  Adotam o atendimento psicodiagnóstico como um espaço terapêutico;

•  Não receberam orientação sexual adequada;

•  Contentam-se com uma vida sexual pouco satisfatória e escassa;

•  Silenciam-se diante da recusa de comunicação direta por parte dos parceiros;

•  Sentem-se humilhadas e inseguras, sendo alvo de mentiras e ironias pelos seus companheiros;

•  Evidenciam baixa auto-estima, com comportamentos de servilismo e submissão;

•  Apresentam-se, extremamente, dependentes com um autoconceito negativo;

•  Delegam ao psicólogo o poder de solucionar os problemas e de tomar decisões para a vida delas, o que confirma a postura dependente.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES IMPORTANTES

Muitos profissionais que se dispõem a trabalhar com casos de violência tendem a se sentir envolvidos e consternados com as histórias trágicas das crianças e suas mães, podendo deixar-se levar de um modo mais ingênuo e que gere menos angústia. Outros profissionais se revelam despreparados, sobretudo para fazer face à situação de violência , sem condições de prestar atendimento de qualidade às vítimas e a seus familiares em função do despreparo técnico, angústia ou por outras questões.

Há os que se comprometem com o trabalho a que se dispõem realizar, tendo em mente que estão envolvidos ética e clinicamente com seu paciente. Isso implica que deverão ser idôneos perante a problemática apresentada, sem posturas radicais, preconceituosas, onipotentes ou ingênuas de cura ou remissão de sintomas, assumindo os compromissos que efetivamente saberão assistir. Desta forma, devemos problematizar as questões apresentadas, apurando os fatos em suas sutilezas, sendo o mais criterioso, ético e técnico possível.

Não basta o profissional ter boa vontade, mas estar capacitado para este trabalho, a fim de não incorrermos em erros e injustiças. Assim, faz-se mister nos prepararmos para que, diante da angústia do "não saber" e da falta de respostas, não fechemos as lacunas com informações equivocadas - sobretudo porque os questionamentos são muitos e poucas são as respostas...

Informações bibliográficas:

AMENDOLA, Marcia Ferreira. Mães que Choram. CanalPsi , Rio de Janeiro.
Disponível em www.canalpsi.psc.br/artigos/artigo04.htm. Acessado .

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