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Avaliações Psicodiagnósticas em situações de abuso contra crianças.

Durante meu trabalho como psicóloga residente do Programa de Pós Graduação Latu sensu em Psicologia Clínico-Institucional sediado no Hospital Universitário Pedro Ernesto - instituição ligada à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (março de 2001 a março de 2003) atuei em casos de suspeita de abuso sexual praticados contra crianças, realizando avaliação psicodiagnóstica de pais e mães encaminhados da Pediatria para o Serviço de Psicodiagnóstico Diferencial.

Esses casos suscitaram o interesse da equipe de elaborar um estudo sobre o perfil das mães que protegiam seus filhos, posteriormente, à ocorrência do abuso sexual. Tal estudo deu origem à monografia de conclusão do curso, intitulada "Mães que choram" - em menção às mães que evidenciaram franco sofrimento face à circunstância do abuso sexual de seus filhos - e é parte integrante do livro O Mosaico da Violência - a perversão na vida cotidiana organizado por Almeida Prado e editado pela Vetor em 2004.

Iniciamos nosso trabalho com as mães de crianças vítimas de abuso sexual pelos pais ou padrastos em julho de 2001 e, em um período de apenas quatro meses, recebemos o encaminhamento de nove mães para avaliação psicodiagnóstica.

Foi natural que despertasse, em nossa equipe, um interesse de conhecer o papel dessas mães e mulheres, a fim de que pudéssemos responder algumas questões que nos permeavam a mente: quem são essas mulheres?; por que se envolveram emocionalmente com homens abusadores?; o que as impediram de evitar o abuso?; são elas vítimas ou cúmplices?

Nesse ínterim, o projeto de pesquisa sobre mulheres de abusadores e mães de crianças supostamente abusadas foi ganhando forma e estabeleceu dois objetivos básicos, a citar:

(1°) atender as mães de crianças vítimas de abuso sexual pelos pais ou padrastos, fornecendo um primeiro espaço de acolhimento e de escuta.

(2°) realizar uma avaliação psicodiagnóstica das mães a fim de identificar (ou não) um perfil psicológico, padrões de comportamento e correspondência com as histórias familiares; e, talvez, conseguir responder às primeiras questões...

Verificamos que a avaliação psicodiagnóstica, nos casos de abuso, precisava sofrer adaptações no setting devido à necessidade dessas mães em falarem. Assim, as sessões foram reconfiguradas para respeitar o tempo dessas mães diante de sua angústia em abordar o tema. De modo que os atendimentos eram longos, de até duas horas de duração, nos quais os testes eram apresentados na última meia hora prevista para o término. Quando possível, assistíamos as mães, concomitantemente, à terapia das crianças, arranjo este utilizado com o intuito de facilitar a adesão ao tratamento e ao processo psicodiagnóstico.

Os recursos utilizados foram entrevistas individuais semi-dirigidas e os testes: Pirâmides Coloridas de Pfister; Bender (cópia, memória, associativo); Questionário Desiderativo; HTP, incluindo família e animal e Rorschach.

Com o término da avaliação psicodiagnóstica, realizamos a entrevista de devolução dos resultados e nos colocamos à disposição da Justiça para maiores esclarecimentos.

A partir disso, a pesquisa ficou definidada da seguinte forma:

Das 9 mães em avaliação:

  • 8 acusaram os ex-companheiros de cometerem o abuso contra o filho(a);
  • 1 foi acusada de assediar o filho;

Das 8 mães:

  • 6 apresentaram-se com relatos de abuso sexual corroborados pelo discurso e comportamento da criança abusada;
  • 2 entraram com denúncia contra os pais das crianças após o pedido de guarda feito pelos mesmos (com a denúncia, o pedido de guarda fica suspenso e os pais são afastados do convívio da criança). Pudemos verificar, por meio de entrevistas com esses pais, que eram os principais responsáveis pela criança durante a semana, arcando com todas as despesas dela, além da pensão (tudo comprovado com recibos). Tal fato nos levou a suspeitar da existência de denúncias falsas.

Das avaliações psicodiagnósticas, elaboramos um primeiro esboço do perfil dessas mães a partir da constatação de convergência de dados.

Dessa forma, nos casos em que houve violência sexual contra a criança perpetrada pelos pais , pudemos constatar semelhanças no comportamento e no discurso das mães, que se mostraram carentes de um acolhimento para falarem de sua dor, do seu arrependimento e de sua culpa com relação à criança. Questionaram-se como não puderam perceber que a violência dirigida a elas, na qual suportavam caladas, iria extrapolar e atingir seus filhos. Desejavam saber e perguntavam como agir, o que falar. Elas não sabiam e choravam muito... são as mães que choram .

São " mães protetoras" , termo por nós adotado que define um comportamento de proteção aos filhos, após a tomada de conhecimento do abuso sexual, promovendo a interrupção desse.

São mães que não ofendem os pais, apenas os desculpam, justificando-os como "doentes"; que procuram assistência tão logo percebem a ocorrência do abuso; que levam seus filhos para realizar o exame de corpo de delito no IML e outros; que pretendem manter seus filhos em terapia, mesmo após a avaliação e laudos médicos e psicológicos;

que temem pelos filhos e por si próprias, sentindo-se ameaçadas e perseguidas; que percebem a agressão à criança como um ataque violento e cruel à sua própria integridade.

São mulheres que adotaram o espaço de psicodiagnóstico como espaço terapêutico; que casaram-se muito jovens, com seu primeiro namorado, ainda virgens; que se contentam com uma vida sexual pouco satisfatória e escassa; que apresentam tendência à idealização, vendo o outro como superior, perdendo o sentido de realidade;

que se calam, pois há uma recusa à comunicação direta por parte de seus maridos.

São mulheres constantemente humilhadas, por meio de uma comunicação paradoxal, feita de mentiras, sarcasmos e menosprezo; atormentadas por um superego severo, expresso como exigências perfeccionistas, que acreditam poder serem amadas quando forem perfeitas; com baixa auto-estima, com comportamentos de servilismo e submissão; extremamente dependentes, com um auto conceito negativo, que esperam receber do outro reconhecimento; com sentimentos de fé e esperança, resultado do uso de mecanismos de reparação que permitem acreditar que o mal poderá ser suprimido e o bem restaurado.

Nos casos em que verificamos a existência de falsas denúncias , essas mães, também, apresentaram comportamentos convergentes, destacando-se em importância:

São mães que procuraram denunciar um suposto abuso sexual de seus filhos após o desenlace conjugal, quando os pais solicitaram a guarda dos mesmos; que procuraram assistência psicológica à criança, declarando a ocorrência de um abuso o qual teria se passado quando a criança era muito pequena, justificando a demora na denúncia em função da espera pelo crescimento da criança, a fim de que esta pudesse verbalizar o ocorrido; que não levaram suas crianças ao pediatra, tampouco ao IML (conforme solicitação do Conselho Tutelar) para fazer exame de corpo de delito; que acusaram os ex-companheiros de nunca terem arcado com as despesas das crianças;

que pouco falaram a respeito dos seus filhos e das preocupações com o bem-estar deles.

São mulheres que se preocupavam, constantemente, com o valor da pensão;

que reclamavam por estarem passando por uma avaliação, questionando a necessidade dos procedimentos e da demora, insatisfeitas com os trâmites judiciais; que falavam de si e de sua relação com o ex-companheiro com muita raiva e desprezo; que falavam do abuso apenas como relato da criança, que tentavam convencer os profissionais pela repetição e exaustão; que mantinham um discurso paradoxal, com mentiras e contradições; que confessavam desejo em fugir para se verem livres do ex-marido.

Chamou-nos a atenção o fato de que essas mães ficavam inquirindo-nos acerca dos atendimentos com os filhos, perguntando o que as crianças deveriam fazer para demonstrar que haviam sido abusadas pelos pais. Digno de nota é que, os relatos das crianças nas sessões de terapia infantil apontaram para uma indução feita pelas mães: "mamãe falou que o pai é mau, que o pai fez maldade", "minha mãe mandou dizer que meu pai pôs esse dedo na minha perereca; agora a gente pode brincar?"; "mamãe disse que o papai é mau, ela não gosta dele, mas eu gosto".

Em nosso trabalho assistindo casos de denúncias de violência sexual contra criança, faz-se mister que os profissionais envolvidos, sejam psicólogos, assistentes sociais, sejam operadores do Direito, mantenham uma postura crítica e participativa, a fim de problematizar as questões apresentadas, apurando os fatos em suas nuances e sutilezas, sendo o mais criterioso, ético e técnico possível. Neste sentido, não basta apenas ter boa vontade, mas preparo técnico, pois estaremos diante de discursos opostos, interesses opostos, que devemos considerar.

Lidar com o tema de violência sexual contra criança gera angústia, ouvir as histórias mais ainda. Viver tal angústia é indescritível. É por essa razão que devemos nos preparar, ter conhecimento e experiência de técnicas de entrevista, técnicas de testagem, a fim de que não possa haver margem para equívocos, principalmente porque tendemos, naturalmente, a fechar as Gestalts, completar as frases, por não suportarmos o vazio, o silêncio, a falta de respostas.

Tendemos a nos sentir envolvidos e consternados com as histórias trágicas, deixando-nos levar de um modo mais ingênuo e que gere menos angústia. Precisamos, portanto, estar em, permanente, processo de análise pessoal e assistidos por supervisão de profissional gabaritado, para ficarmos amparados ao lidar com a violência.

Portanto, sugerimos que todos os casos em que haja suspeita de violência sexual contra a criança possam ser periciados por profissionais de saúde a fim de discriminarmos os casos em que houve abuso sexual daqueles em que possa haver uma falsa denúncia, para que procedimentos sejam tomados de modo a causar menos impacto à criança e injustiças sejam evitadas.

Informações bibliográficas:

AMENDOLA, Marcia Ferreira. Avaliações Psicodiagnósticas em Situações de Abuso contra Crianças. Palestra proferida no XI Fórum de Psiquiatria do Hospital Universitário Pedro Ernesto - A prática clínica na atualidade: algumas questões críticas sobre diagnóstico e terapêutica . HUPE/UERJ, Rio de Janeiro, nov. de 2002. Disponível em www.canalpsi.psc.br/artigos/artigo06.htm. Acessado .

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